Hipocondria gramatical É engraçado como as coisas acontecem. Hoje fui ao oftalmologista. Fiz todos os procedimentos de rotina “você enxerga essa letra?”, “xiii, doutor tá meio fosco...”, “fica melhor essa ou essa?”, “Essa, essa está bem melhor”, “Você tem o olho esquerdo pior que o direito!” “Ah, é?? Não sabia!”; ele coloca então a mão na frente do meu olho direito, “Nooooossa, é mesmo, assim fica tudo turvo!”. Depois disso, vamos à outra sala, mede-se a pressão do meu olho – tudo ok; mede-se a espessura da minha córnea – tudo nos conformes também. Tudo isso pra ver se não tenho glaucoma. É uma doença sorrateira e é bom ficar de olho, com o perdão do trocadilho. Aí então ele me pede mais uns exames, mais uns, pensei. Mais uns que o plano de saúde não cobre e depois terei que passar pela filha dele para serem analisados - ela é especialista em glaucoma, e ele, especialista em ganhar dinheiro e fazer a filha ganhar dinheiro também. Tudo um jogo bem feito de nepotismo na medicina. E como a gente tem medo da bendita doença, faz-se os exames. Eu não quero ficar cega. Mas o fato é que ele me pediu para fazer, ali na clínica mesmo, um outro exame. Pra ver como está meu campo de visão. Era só me perguntar. Eu enxergo bem tudo que está em minha volta mesmo às vezes não querendo enxergar. Fui fazer o dito exame. Sentei num banquinho com o queixo e a testa apoiados numa máquina estranha. O teste era o seguinte: eu deveria manter o olho direito – depois o esquerdo – fixado em um ponto preto na parede branca a minha frente (o olho esquerdo estava tapado). Depois, a moça do consultório, não digo enfermeira porque provavelmente ela não é, ficava acendendo e apagando uma luzinha amarela da qual eu devia dizer “sim” se eu a enxergasse e “não” no caso contrário. Tudo bem, muito fácil. Ela começou com seu ofício, apertava e desapertava, e eu, comecei com o meu, responder sim, sim, sim, sim, nas vezes que eu enxergasse o pontinho amarelo que se acendia. Entretanto, chegou um momento que eu cansei de dizer sim, e comecei a responder “aham” “aham”... aí então intercalava. Sim, sim, sim, aham, aham, aham, hum hum (já estava pigarreando...a garganta estava enjoando de dizer a mesma coisa), sim, sim, aham, aham, um NÃO, finamente e mais inumeráveis sins e ahans. Depois ela me apareceu com uma luzinha vermelha e com o mesmo procedimento – sim, sim, sim, sim, sim, ahaaaaam, siiiiim e assim por diante. Engraçado como quem mexe com as palavras tenta sempre procurar um sinônimo pras coisas pra não parecer repetitivo. Achei que a moça estava incomodada com meus sins, mas acho que ela nem percebeu. Ela mudou de olho, agora era o esquerdo. E começou tudo de novo. Acende a luz, sim, acende de novo, sim novamente. E assim foi. Comecei então a pensar em responder “positivo”, “afirmativo”, “vi”, “tá ali, oh!”, “Yes”, “yeah”, “sí”, comecei até pensar em outras línguas. Mas se eu respondesse algo diferente de sim a moça me encaminharia pra um consultório psiquiátrico. Respondia mentalmente com palavras diferentes. Eu estava incomodada. Queria dizer um não de vez em quando, mas o disse apenas uma vez, da mesma forma que no procedimento do olho direito. Mas chegou um ponto que eu me libertei do incômodo, continuei a responder sim sim sim sim sim irrefreadamente, e apenas sim agora. Deixei o aham de lado e não parei mais. É tão simples dizer sim, pra quê contrariar?! Eu nem estava mais prestando atenção nas luzinhas. Às vezes eu respondia sim antes mesmo de ela acender. Engraçado. Estava pensando na morte da bezerra e as luzinhas não paravam de piscar. Graças a Deus, uma hora aquilo parou. A moça do consultório disse “Pronto, chega de ver luzinhas!” no que prontamente eu respondi “chega de dizer sim”, ela riu. No final de tudo, o doutor disse que meu campo de visão está perfeito, enxergo tudo ao meu redor. Mas fiquei angustiada, meus olhos estão perfeitos, no entanto penso que devo consultar um vocabulariologista para que me prescreva alguns sinônimos.
Escrito por Ana Paula Sierakowski às 13h03
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Do que que é feito? Do que que é feito tanto feito nesse mundo sem defeito? Pipoca do milho vem e estoura com tanto efeito. Chiclete de couro de boi a gente rumina mascando mascando. Como que faz refrigerante ficar cheio de bolhinhas estourando? Do que que é feita a nuvem lá longe no firmamento? Como o queijo fica furado por dentro? Do que é feito o neném que nasceu de comprimido de farinha? Como se coloca o ar nas bolhas dos plásticos de bolhinha? Do que que é feita a salsicha? E o suspiro? O respiro? O espirro? A tosse? Tosse... Tosse... Tosse. E xarope? Papelão? Vidro de janela e latão? Casca de ovo, polvilho, e como se tira o amido do milho? E pão de ló? É de ló ou da Ló? E o nó, o pó, o só? Do que que é feito o breu? O seu? O meu? O Eu? E o cabresto? E o cesto de roupa? E o incesto? Do que que é feito o barbante? O amante? O diamante? O quebrante? E o sol? O fá? O ré? O dó? Que dó! Se é feito de couro, de gás, de areia, de cálcio, bactéria, fungo, vácuo, escuridão, carne, osso, sangue, força, fé, coragem e medo. Que que tem, se todos tem defeito? De que é feito o amor? Se o que se vê é dor, sem cor, sem flor? De que é feita a vida? Se há briga, guerra fingida, gente sofrida? De que é feito o ódio? Se se tem tédio, força e remédio? De que é feita a morte? Se se tem sorte, o sul e o norte e o consorte? De que é feito você? Se tem eu, ele, a Maria e o Jessé? Do que é feito todo mundo? Se é queimado o vagabundo, sem se perguntar seu rumo, seu prumo, seu sonho, seu nome, seu desejo, sua fome? O que é o rico, o pobre, o milionário ou o miserável, se todo mundo vai ao banheiro? O que é o cheiro, o fedor, o bom ou ruim se morto não precisa de dinheiro? O que é a casa, o carro, a roupa, o sapato, se caixão não tem gaveta? Pra que se fazer diferença, se não interessa ser pessoa branca, amarela ou preta? Pra que discutir Deus se cada um tem uma opinião? Pra que agradar o outro, se se pode dizer não? Pra que tudo isso, se todos têm o mesmo fim? Por que que as coisas têm de ser assim?
Escrito por Ana Paula Sierakowski às 00h30
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Tic tac.
Não sei quem realmente sou, nem nunca vou saber. Nunca sei o que quero, espero um dia querer. Não sei o que dizer em certas horas, e nas outras também. Falo pouco para não falar abobrinha, mas falo-as mesmo assim. Gosto de tanta coisa que tantos não gostam. Isso é bom. Não vira clichê. Queria ter uma voz sexy. Mas dizem que ao telefone ela parece de criança. Espero que o Michael Jackson nunca me ligue. Um dia ainda terei mil livros. E lerei todos eles. Quero ter um filho, ou três. Não me lembro de ter plantado uma árvore. Não sei se tenho paciência pra escrever um livro. Não sei se teria paciência (leia-se “saco”) para ler meu livro. Acho que eu não faria isso para a humanidade. Eu adio meus compromissos. E a vida goes on and on and on. Queria casar com o Heath Ledger, mas ele já morreu. Os todos amores platônicos que tive ou tenho se mudam. De cidade e de plano espiritual. Eu tenho um ímã ao contrário. Acho que tenho uma mente ao contrário também. Ao mesmo tempo que sou igual a todo mundo não sou igual a ninguém.
Escrito por Ana Paula Sierakowski às 00h21
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Nocturne II In E-flat Major Inspirador. Por si só já diz tudo. Cada nota vagueia no ar como gotas de chuva a cair no solo seco. Dá vida. Revive. Cada som vem como o vento soprando devagarinho em seu ouvido as melhores palavras. Fico em pé, no escuro, com o rosto na janela. Como a moça esperando a banda passar. Mas não estou esperando nada. Só ouço as notas a me levarem pra um lugar que não sei se existe nesse mundo. Mundo noturno. Madrugada. Inspiração imaculada. Os pingos finos da chuva salpicam meu rosto. Uma gota cai perto de meu olho e escorre como uma lágrima. Uma lágrima doce de alegria que nem chorei. Meus lábios se movimentam em um sorriso. Meus olhos continuam fechados. O dia está para amanhecer. O som é inebriante. Me embriaga de uma forma tão certa. Tão clara. Tão sóbria. Notas que me fazem sentir um mundo. O mundo. Nosso mundo. Que muitos nem enxergam. Cada nota toca como um sino anunciando. São os arautos da boa nova. Só pode ser. Um som tão meticuloso e suave e doce e extremamente sensual só pode anunciar que algo de bom está para acontecer. Se não está para acontecer, está acontecendo. Eu sinto o mundo. E ele me abriga.
Escrito por Ana Paula Sierakowski às 16h26
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Sorriso maquiado Tinha aquela moça que sempre estava a sorrir. Estonteantemente sorridente. Extremamente efusiva. Sempre rodeada de amigos, de pessoas que mal a conheciam. Mas sempre envolta por pessoas que a idolatravam como aquela que "nossa, como ela é divertida", "essa é companheira", "nossa, a Clara não tem problemas!", "ela não tem limites". Sempre fora protegida por esse manto de pessoas ao seu redor. Sempre a colocando em um patamar de adoração. O patamar da popularidade. Para os outros ela estava sempre bem. Sempre feliz. Sempre sorrindo. Sempre abraçando. Sempre beijando e se relacionando a cada dia com uma pessoa diferente. Apegar-se era mostrar-se frágil. Cada dia era um. Ou uma. Tanto fazia. Quantidade era melhor. Os outros diriam que ela era o máximo. Sempre bêbada. Sempre. Aquela sensação do descer do álcool por sua garganta e amornar seu corpo. Esquentar suas entranhas. Depois os braços se amolecendo. As pernas. O sorriso vindo fácil. Sem precisar forçar. As gargalhadas. Dadas com tanta facilidade. O papo fluindo facilmente. Falava coisas que a todos interessava. A todos fazia rir. Não importava se era verdade ou não. Eles também estavam bêbados. Não perceberiam a verdade. A verdadeira verdade. O torpor do álcool a embriagá-la era como a vaga do mar a consumi-la. A engolia. Engolia seus problemas. Pelo menos naqueles instantes. Depois da ressaca, era só beber novamente e tudo se resolveria. Ouvia Chopin quando sóbria. Quase nunca. Mas os outros não poderiam saber. Os outros a achariam careta. Inteligente. O que de fato era. Muito inteligente. Mas nunca transparecera muito. Os outros a achariam uma chata. Nerd. Intelectual. Os intelectuais para ela eram uns grandes babacas com quem ela nunca se relacionaria. Não traria popularidade. Afastara-se de todo tipo de coisa com que a faria taxada de certinha. Não. Ser certinha é muito clichê. O barato é ser diferente. Ficar doida até o limite. Beber tudo até o limite. Uma forma de se esconder de si mesma. Uma forma de chamar a atenção alheia. Mais uma vez passara dos limites. De todos possíveis. Drogas, álcool, muito sexo e pouco rock. Rock já não era mais o legal do momento. Tinha de se ouvir aquelas músicas que pareciam todas iguais. Com fortes batidas em que o corpo mexia-se quase sozinho. Sem nenhum esforço. A bebida não permitia muito esforço ou coordenação motora. Caíra. Deitada no chão ria da dor que nem sentia. Babava. Mas era legal. Os amigos diriam que ela era forte de ainda não estar em um coma alcoólico mesmo depois de tanta coisa que havia misturado. O carinha que ela acabara de conhecer e ficar estava esparramado. Desmaiado em algum canto. Inconsciente. Sem saber de nada. E ela ali. Com os braços abertos. As pernas abertas. Mesmo estando de saia. Os olhos quase fechados. Vermelhos ao estremo. E na boca, um sorriso molhado, babado e débil. Explicitando seu estado de espírito. Uma alma babada, cuspida e débil. Amedrontada pela afirmação alheia. Amedrontada pela auto-afirmação. Sedenta por mostrar um ser que não era. Sempre circundada de amigos que só lembravam-se dela para beber e para ficarem loucos. Um manto de hipocrisia com o qual ela mesma se cobrira. Ela mesma o procurara. Tentara esconder aquela bela criatura que não seria popular se fosse verdadeira. Escondera a sua essência. Assim se perdera. Assim perdera ela mesma em um caminho que ela mesma escolhera. Tu és as escolhas que fazes. Assim ela fizera. E se construíra. E se moldara do jeito que achara que os outros gostariam. Ela não gostava. Mas se perdera. Estivera envolta num manto que a protegia de sua própria solidão. Bebia para preencher todo o vazio que sentia por dentro. Mascarar tudo aquilo que acreditava e sentia de verdade. Mas se corrompera. O mundo a corrompera. Mas porque assim ela o permitira. Era uma muralha frágil. Muito fácil de transpor. Queria ser autêntica. Mas era o molde que os outros queriam que ela fosse. Era o boneco da sociedade que ela sempre criticara. Era interessante criticar as coisas. Mas nunca movera um dedo pra tentar mudar nada. Apenas se corrompera. Sem mesmo perceber que era produto de tudo que havia criticado e gritado aos quatro cantos que ela odiava. Pichara nos muros sua revolta. A tinta nada mais era do que a sua própria máscara. Maquiava tudo que sentira de real. Agora era só o resultado de uma combinação de álcool, falsidade e auto-destruição. Não se importava mais. Aquele sorriso débil que estampava seu rosto agora poderia ser visto por seus grandes amigos e eles descobririam a farsa que ela era. Descobririam que ela não era aquela alegria e inconseqüência que sempre mostrara ser. Era um ser frágil e escondido e maculado por sua própria solidão. Mas eles não veriam. Eram também os palhaços do circo da alegria que criaram. Cada um escondendo uma coisa a cada gole. A cada trago. A cada passo torto. Bebiam a inconseqüência do mundo. Entornavam o desespero do mundo somado ao desespero próprio. Eram crias deles mesmos. Drugs et circenses.
Escrito por Ana Paula Sierakowski às 01h06
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Bundo
Mundana?
Olha o mundo Ana!
Bunda no mundo
Bundo.
Mundo e a Ana
MundAna.
Esse mundo vagabundo
Vagamundo
Vago mundo
Bundo.
Mundo de bunda
Vagabunda.
MundAna?
Não sou desse mundo!
Escrito por Ana Paula Sierakowski às 03h37
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Estou colocando esse trecho do livro de Clarice porque achei mto belo e gostaria de compartilhá-lo com quem frequenta aqui!!
"Alivia a minha alma , faze com que eu sinta que a morte não existe porque na verdade já estamos na eternidade, faze com que eu sinta que amar é não morrer, que a entrega de si mesmo não significa a morte, faze com que eu sinta uma alegria diária e modesta, faze com que eu não Te indague demais, porque a resposta seria tão misteriosa quanto a pergunta, faze com que eu me lembre de que também não há explicação porque um filho quer o beijo de sua mãe e no entanto ele quer e no entanto o beijo é perfeito, faze com que eu receba o mundo sem receio, pois para esse mundo incompreensível eu fui criada e eu mesma também incompreensível, então é que há uma conexão entre esse mistério do mundo e o nosso, mas essa conexão não é clara para nós enquanto quisermos entendê-la, abençoa-me para que eu viva com alegria o pão que eu como, o sono que durmo, faze com que eu tenha caridade por mim mesma pois senão não poderei sentir que Deus me amou, faze com que eu perca o pudor de desejar que na hora da minha morte haja uma mão amada para apertar a minha, amém."
(Clarice Lispector, em Uma Aprendizagem ou O Livro dos Prazeres)
Escrito por Ana Paula Sierakowski às 23h51
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Depois de um tempinho sem postar algo..trago-lhes um "conto"...
Abraços...espero que gostem!
A chuva que eles não percebem
O dia estava chuvoso. Sempre gostei de dias chuvosos. Sempre melancólicos e úmidos. Com aquela névoa e aquela sensação estranha de um dia chuvoso. Que gosto. Aprecio. Os transeuntes caminhavam pela rua molhada. Trombando seus guarda-chuvas. É sempre tão fascinante aquela legião de guarda-chuvas subindo e descendo pelas ruas. Amarelos, vermelhos, coloridos, mas, em sua maioria, pretos. Todos guarda-chuvas pretos transitando pelas ruas molhadas.
Eu parei de repente no meio daquele mundo todo. Pra quê tanta gente fora de casa num dia de chuva?! Olhei-os. Alheia. Pra quê?!
Dia de chuva a gente fica em casa. A gente não. Vocês!! Eu saio. Eu aprecio as coisas. Vocês... vocês ficam. Na frente da TV, comendo pipoca, assistindo bobagem. Eu não. Eu saio, eu olho, eu paro, eu reparo. Vocês ficam. Eu estaco. Eu, Maria, como tantas marias, sou diferente de você que fica comendo pipoca em casa num dia de chuva. Você não vê. Você não consegue. Você não enxerga as coisas de um dia de chuva. Você não enxerga nada. Eu sim, eu enxergo, eu percebo as mínimas coisas de um dia de chuva. Os pingos lentos caindo do céu. Depois se intensificam. Formam poças. Poças refletem coisas. Refletem o desespero do mundo. Que ninguém vê. Você não vê. Você não quer ver. Você assiste TV e come pipoca. Eu vejo. Estou estacada no meio da esquina, carros passam e espirram água em mim. Eles nem me percebem. Eles nunca percebem. Mas eu não ligo. Não me importo pela água que me molha e que, mesmo suja, me purifica. Eu me importo com o cara do carro que espirrou água em mim e nem percebeu. Ele não percebe nem que o filho dele não está bem. Ele não percebe nada. A chuva continua a cair. O céu está escuro. Lindo. Lindo como a chuva que arrefece o calor de tantos dias. Lindo como o sorriso do retirante quando a chuva cai no sertão. Mas eles não se importam. Só querem sol. Sol para exibirem seus corpos em roupas mínimas. Sol para ir pra praia. Sol pelo sol. Só o sol. A chuva vem e eles praguejam. “Não pára de chover!”. Enquanto as plantas morrem. Todos morremos. E a chuva não vem. Mas eles não percebem nunca. Os olhos dos transeuntes estão tristes por causa do aguaceiro que cai do céu. Eu jogo meu guarda-chuva e abro os braços. Olho pro céu. A chuva molha meu rosto. Minha alma se purifica. Eu sorrio. Eu me alegro. A chuva é benção. Mas eles não percebem. Eles querem o sol. Eles querem a pipoca. E as bobagens da TV. Eu quero a chuva. Os pingos no meu rosto, lavando minha alma e me diferenciando de todos esses outros que não percebem as belezas de um dia de chuva... eles não percebem e nunca perceberão. Nada. Nunca. Estão cegos. O céu está escuro. Mas ainda é azul.

Escrito por Ana Paula Sierakowski às 22h00
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A superstição é imortal
Quando eu era bem menino Tinha fadas no jardim No porão um monstro albino E uma bruxa bem ruim.
Cada lâmpada tinha um gênio Que virava ano em milênio E, coisa bem mais perversa, Sapo em rei e vice-versa.
Tinha Ciclope,Centauro, Autósito, Hidra e megera, Fênix, Grifo, Minotauro, Magia, pasmo e quimera.
Mas aí surgiram no horizonte Além de Custer e seus confederados A tecnologia mastodonte Com tecnologistas bem safados Esses homens da ciência me provaram Que duendes, bruxas e omacéfalos Eram produtos imbecis de meu encéfalo. Nunca existiram e nunca existirão: uma decepção!
Mas continuo inocente, acho. Ou burro, bobo, ou borracho. Pois toda noite eu vejo todo dia Tudo que é estranho, raro, ou anomalia: Padres sibilas Hidras estruturalistas Ministros gorilas Avis raras feministas Políticos de duas cabeças Unicórnios marxistas Antropólogas travessas Mactocerontes psicanalistas Cisnes pretos arquitetos Economistas sereias Democratas por decreto E beldades feias Que invadem a minha caverna E me matam de aflição Saindo da lanterna Da televisão.
Millôr Fernandes
Escrito por Ana Paula Sierakowski às 13h31
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Deixo aqui, um poema de Florbela Espanca.... poeta da qual suas simples palavras conseguem tocar bem nas partes mais sensíveis da alma!
Gosto muito dela e espero que vocês também gostem!
Ela consegue traduzir bem o que muitas vezes tenho vontade de dizer... :)
Bjos a todos que aqui frequentam.
Versos
Versos! Versos! Sei lá o que são versos… Pedaços de sorriso, branca espuma, Gargalhadas de luz. Cantos dispersos, Ou pétalas que caem uma a uma.
Versos!… Sei lá! Um verso é teu olhar, Um verso é teu sorriso e os de Dante Eram o seu amor a soluçar Aos pés da sua estremecida amante!
Meus versos!… Sei eu lá também que são… Sei lá! Sei lá!… Meu pobre coração Partido em mil pedaços são talvez…
Versos! Versos! Sei lá o que são versos.. Meus soluços de dor que andam dispersos Por este grande amor em que não crês!…
Florbela Espanca - Trocando olhares - 29/07/1916
Escrito por Ana Paula Sierakowski às 18h01
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Desmemória
Eu sempre tive o costume
De fazer uma pintinha,
De tinta de caneta - azul, tanto faz, ou preta
No cantinho de minha mão esquerda,
No espaço acima do dedão,
Sempre pra me lembrar de não esquecer
De alguma coisa pra fazer.
Lembrar-me de ligar pra alguém,
Lembrar-me de alguma banda,
De algum cheiro, de algum nome.
Esses dias, finalmente, acabei por perceber
Que tenho uma pinta natural na mão direita,
No mesmo lugar: no cantinho da mão, acima do dedão.
Foi então que eu percebi,
que a marca não estava por acaso ali,
Ela estava ali pra eu lembrar de não esquecer
Que eu tenho que olhar pra outra mão.
Escrito por Ana Paula Sierakowski às 00h58
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Clichê
Toda essa diversidade da cidade
Todos os prédios de olhos bem iluminados
Fazem do lugar um cinza com pingos brilhantes
Que escondem as caras dos amantes, dos viajantes, dos semblantes.
Toda essa algazarra durante o dia
Todos os carros emparelhados nas ruas
Desapercebem um sorriso de alegria
E a moça triste desfilando quase nua.
Toda essa frialdade, essa superficialidade...
Toda essa bagunça de rostos, de buscas, de sonhos,
Toda essa pressa, essa correria fria
Deixa-me solitária andando no meio de tanta gente.
Escrito por Ana Paula Sierakowski às 11h06
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Depois de tantos poemas...para começar o ano, aí está o primeiro conto que escrevi. Espero que gostem. Abraços!
Ilusão de ótica
A rua estava vazia, eram quase dez horas da noite e ela permanecia com seu rosto contra as grades da janela, observando o marasmo da rua. Estava ali esperando por um momento de epifania, ouvira tantas vezes essa palavra dita por seus professores, que sempre falavam que algum personagem havia passado por um momento de epifania e ela achava essa palavra particularmente bonita, sombria, sonora, mas sem um sentido verdadeiramente real para sua mente. Mas queria passar por um momento desses, deveria ser bom.
Começou então, observar o muro que se estendia a frente do prédio. Ela se encontrava no primeiro andar. As sombras das grades das janelas do térreo formavam desenhos de flores no muro pintado de verde claro, cheio de manchas de mofo ou umidade que foram se formando com o tempo. As sombras formadas pelas flores eram grandes e ela esperava. Em cima do muro, milhares de espécies de pregos para que ladrões não pudessem pular por ali, mas com um bom calçado, com certeza daria para se andar tranquilamente por aquele muro. Os ladrões tem bons calçados...eles nos roubam os bons calçados.
Olhava também a árvore que se erguia à sua frente, tinha uma orquídea, ainda não florida, como hospedeira. Havia também, dois carros parados na rua, mas nenhum movimento humano, apenas o dos dedos dela a mexer pacientemente nos cabelos. Os olhos sempre na direção de cima da rua, sempre na esperança de ver alguém. Um certo alguém.
Passou alguém, mas não era ninguém que ela queria ver. Voltou seus olhos para a árvore. As folhas tão verdes a fascinavam. E um vento fresco naquela noite quente às vezes balançava as folhas das árvores, ou os cabelos da moça. A sala que ela se encontrava estava escura, seu rosto era iluminado pelas luzes dos postes da rua. A casa estava vazia. Sua mente, porém, estava repleta de pensamentos bagunçados. Seus olhos estavam cansados por ficarem tanto tempo fitados em um ponto só.
Olhou para seus pés rapidamente...estavam frios apesar do calor. De repente, o frio dos pés subiu para a barriga. O certo alguém estava descendo pela rua, com os cabelos balançados e bagunçados pelo vento. E descia. E ela olhava. Sem piscar. Sem pensar. Olhava. Ele percebeu que estava sendo observado e parou. Fitou seus olhos nos olhos dela, que parou. Estancou. Se olharam, por segundos, ou por horas. Indescritível, incontável.
As árvores farfalhavam, ouvia-se o cricrilar dos grilos e bem ao longe ouvia-se uma banda de garagem ensaiando. O som dos pratos da bateria dava para se ouvir mais claramente. Ela ouvia, mas não escutava. Os dois continuavam a se olhar. Até o momento que ele falou: - Olá!
Ela respondeu, quase sem acreditar, sua voz meio rouca por estar bastante tempo sem dizer nada e por estar com dor de garganta, respondeu titubeante: - O-Olá!
- Como você está? Perguntou o moço.
- Bem, e você? Respondeu ainda trêmula.
- Bem! ...Bom...tenho de ir, Rosa...seu nome é Rosa, não é?
Mais trêmula ainda por perceber que ele sabia seu nome, ela respondeu: - É sim. E o seu é Antonio, não?!
- Sim. Bem...R-Rosa... tchau! Disse com um sorriso tímido no rosto.
E ela com um ar de tristeza por ver que ele ia, respondeu: - Tchau...
Ele, com resistência, virou o rosto, e foi. Ela, num impulso meio que insano disse:
- Antônio?!!!!
Sua voz ecoou pela rua vazia, seu coração disparou de tal forma que seu peito até doeu. Porque ela fez isso? Ela sempre se sentia mal quando dizia palavras no ímpeto.
Ele tornou a se virar para ela. Seus olhos se encontraram novamente. Os delas brilharam, os dele também. E ele respondeu esperançoso: - O quê?!
E ela sem saber o que responder, disse: - Até logo!
Ele novamente se virou, com um olhar triste e desapontado, e desceu rua abaixo sem dizer nada. O coração dela ainda estava disparado, mas começava a se acalmar. Um primeiro contato fora estabelecido...e, para ela, tão profundamente. Será que dessa vez algo aconteceria? Será? Será? E os “serás” permearam sua mente como sempre. Ela segurou as grades da janela e percebeu que se sentia presa ali.
As folhas das árvores começaram a se mover novamente. Ela, por um estalo voltou a olhar para a árvore, para os dois carros parados na rua, para a rua vazia e agora, para o lado de baixo da rua.
Ninguém passava por ali, ninguém passara por ali.
Escrito por Ana Paula Sierakowski às 20h02
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Pra quem gosta de pintura e poesia...aí está um site de uma menina prodígio...
http://www.artakiane.com/home.htm
Escrito por Ana Paula Sierakowski às 16h40
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Hahh.... acho que esse poema foi um pouco de audácia da minha parte...(querer pegar a idéa de Machado pra escrever um poema...heheheheh)... lendo o livro Dom Casmurro, Bentinho começa escrever um poema... dá o mote e a chave de ouro e não o termina... e diz:
"...Pois, senhores, nada me consola daquele soneto que não fiz. Mas, como eu creio que os sonetos existem feitos, como as odes e os dramas, e as demais obras de arte, por uma razão de ordem metafísica, dou esses dous versos ao primeiro desocupado que os quiser. Ao domingo, ou se estiver chovendo, ou na roça, em qualquer ocasião de lazer, pode tentar ver se o soneto sai. Tudo é dar-lhe uma idéia e encher o centro que falta." [ASSIS, Machado de. Dom casmurro. São Paulo: Globo, 1997. (Cap. LV)]
Eu sou uma das desocupadas que encheu o centro do soneto...hahaahhauiahi...e peguei a idéia [tema] dele sobre a Justiça (na verdade acho que foi mais sobre a INjustiça)...saiu isso aí:
Sobre a Justiça...
“Oh! flor do céu! Oh! flor cândida e pura!”
Muitos atos feitos, perde-se candura
Muitos atos desfeitos, ganha-se clemência
Mas do meio dos impunes, espera-se sem paciência.
Oh! flor cruel! Oh! flor ocre e sem alvura!
Teus filhos clamam por ti... bravura?
Teus filhos choram a tua espera... demência?
E os arroubos desse mundo insistem na violência.
Oh! flor sem mel! Oh! flor banhada de loucura!
Teus olhos estão tapados, selados
Alguns teus filhos são protegidos... merecidos?
Alguns teus, são condenados, julgados...
Outros tantos na navalha...
“Perde-se a vida, ganha-se a batalha!”
Escrito por Ana Paula Sierakowski às 15h07
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Um poeminha bobinho que escrevi esses tempos...
O Sol e a Lua solteirões
Um aqui, outro acolá
Solteirões não por vontade
Foi o que se deu e o que posto está.
A Lua apaixonada não o podia ter
O Sol bem triste, para o outro lado foi sofrer.
Enquanto um brilha de esperança de ver a amada
O outro se molda aos tempos e se fia à escuridão lhe dada.
E assim vão: A Lua em fases na tristeza de não poder ter seu amado
E o Sol radiante, na ânsia de encontrar sua querida namorada.
Eis que os dois podem ser vistos no mesmo céu,
Posto que se dá o entardecer...
Porém continuam distanciados,
Sem se tocar, sem se amar, sem se ver.
Escrito por Ana Paula Sierakowski às 14h50
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Tah aih um poeminha meio machista de minha parte!! hauhauihihihui...
Palavrão
Foda-se
Vai tomar no cu
Mas que porra é essa?
Quanta coisa feia para uma mulher dessa!!
Mulher falando palavrão
Não é coisa boa de se ouvir
É como uma peça de roupa errada
Na hora de se vestir.
Já ouvi em algum lugar,
Olha que coisa maravilhosa:
Palavrão em boca de mulher,
É um monte de espinhos no caule de uma rosa!
Escrito por Ana Paula Sierakowski às 14h31
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Ahhhh...já que não tenho nenhum texto pra postar....e se tem alguém que lê isso aqui...vai aih uma dica de banda muito boa que tenho ouvido ultimamente (se é que tem alguém com interesse nisso...hauihaiuahi)
A banda é Kings of Leon....Banda de Rock alternativo na mesma linha dos Strokes e do Arctic Monkeys...ou sei lá com o que é parecido...hauhih...aih vai um pouquinho sobre a banda:
Formada pelos irmãos, Jared Followill (baixo), Nathan Followill (bateria) e pelo primo deles Matthew Followill (guitarra). Em julho de 2003, foi lançado o disco Youth and Young Manhood, primeiro da banda, alcançando sucesso em todo o mundo, principalmente na Inglaterra. O álbum foi eleito pela imprensa inglesa entre os 10 melhores discos de estréia dos últimos 10 anos. Canções como Red Morning Light, Happy Alone, California Waiting e a viciante Molly's Chambers são os destaques do álbum. Em dezembro de 2004, foi lançado o segundo álbum da banda, este intitulado Aha Shake Heartbreak. Precedido pelo single The Bucket que saiu em outubro, o álbum reafirmou a presença da banda no cenário internacional, vendendo mais de 500 mil cópias na Inglaterra em um ano e ganhando disco duplo de platina no Reino Unido. Destaques para Slow Night, So Long, Pistol of Fire, The Bucket e Four Kicks. Em abril de 2007, foi lançado o mais esperado álbum da banda com o título Because Of The Times. Após o lançamento, o álbum liderou por várias semanas as paradas britânicas e atingiu o 25º lugar nos Estados Unidos, um feito considerável para eles que até então eram aclamados na terra dos Beatles e pouco conhecidos em seu país natal. Os destaques do álbum: Knocked Up, faixa de 7 minutos que abre o álbum e a música preferida dos membros da banda. Charmer com os gritos do Caleb Followill, On Call com sua introdução experimental e uma linha impecável no baixo. McFearless apelidada pela banda de "McFantastic", o rock arena de Black Thumbnail, os experimentos vocais de My Party em que Caleb Followill utiliza dois microfones, o reggae Ragoo, a dançante Fans uma balada com forte influência do booggie (ritmo dançante dos anos 70) em homenagem a seus fâs britânicos e a última música do álbum Arizona, faixa com influência soul na qual após o 2º refrão Matthew Followill toca triângulo. Para a crítica, este é o melhor álbum da banda até o momento, que apresenta canções com letras reflexivas e ao mesmo tempo expõe de forma definitiva a originalidade e criatividade da banda para compor.
fonte: http://pt.wikipedia.org/wiki/Kings_of_Leon
minhas músicas favoritas: Kings of Rodeo, Mcfearless, Molly´s Chambers, California Waiting, Charmer, Talihina Sky, Rangoo, Genius....ahh...e mais um tanto!!
página oficial da banda: http://www.kingsofleon.com/
Escrito por Ana Paula Sierakowski às 16h08
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No inspiration!!!
Estou precisando de alguma fonte de inspiração....mas está difícil de encontrar....
Está difícil de tirar algo dessa mente bagunçada aqui!
Está difícil!!
Abraços!!
Escrito por Ana Paula Sierakowski às 15h54
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Não sei se tem alguém que entra nisso aqui pra ler...mas se tiver...deixe-me explicar a falta de publicações...
É que estou sem tempo para postar....escrevi algumas coisas ultimamente...mas estão precisando de retoque...e sei lá...estão meio sem graça!!
O dia que eu estiver com tempo e com algo legal pra postar...eu posto!!
haiuhaiahi...
Desculpe-me pela inalterabilidade (gostei dessa palavra..hehehe)
Abraços bem apertados a todos!
Escrito por Ana Paula Sierakowski às 11h15
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